
“Descriminalizados”: cidadãos pró-vida, ao lado de Dom Bergonzini, seguram documentos da CNBB Sul 1 liberados por determinação do Tribunal Superior Eleitoral após inédito movimento de criminalização do movimento pró-vida, no Brasil, em 2010, por inciativa do Partido dos Trabalhadores (PT). A partir da esquerda: Renata Martins, Hermes Rodrigues Nery, Dom Luiz Bergonzini e Wagner Moura
Grande mídia noticia ato pró-vida
“Católicas” pelo Direito de Decidir são processadas por líder pró-vida
Zé Dirceu (PT) se irrita com manifestação pró-vida
Menino surpreende em defesa da vida
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por Prof. Hermes Rodrigues Nery
Apontamentos sobre o ato público em defesa da vida na praça da Sé, centro de São Paulo, em 21 de março de 2012, liderado pelo bispo emérito de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini
Pouco depois das 10 da manhã, saímos de Guarulhos e enquanto nos dirigíamos para o centro de São Paulo, rezamos o terço: mistérios gloriosos. Perto das onze horas já havia uma concentração nas escadarias da Catedral da Sé, animada por Anderson Luis dos Reis, da Renovação Carismática Católica (RCC). Vários jovens com camisetas brancas com a inscrição “Aborto, não!” preparavam seus cartazes e iam distribuindo o folheto “Apelo a todos os brasileiros e brasileiras”, finalmente liberados pela Justiça, razão pela qual Dom Luiz Gonzaga Bergonzini havia convocado aquela manifestação, para tornar público a legitimidade e legalidade do documento.
Iniciamos o evento com a oração do Pai Nosso. Em seguida, Renata Martins, rezou a Ave-Maria, ressaltando Maria, como Nossa Senhora e Mãe da Vida. ”Maria, pois, é modelo para a Igreja; e mais: é o melhor e o mais completo modelo com que pode comparar-se e do qual pode tirar inspirações no seu caminho a cada momento: o modelo mariano é contemporâneo a todos os tempos da Igreja”1. Logo após, o Cel. Paes de Lira exibiu o “Apelo”, assinado por três prelados do episcopado brasileiro, reafirmou a sua legitmidade, legalidade e – o mais importante – a sua atualidade. E então, um a um dos presentes foram fazendo uso da palavra e destacando o valor da vida e a dignidade da pessoa humana, de modo integral. “A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção”.2
Os que estavam lá representavam a expressa maioria do povo brasileiro, pois segundo o DataFolha de 2010, apenas 7% querem a legalização do aborto, e 71% aceitam a legislação e o Código Penal do jeito que está, sem ampliação na flexibilização do aborto. Dias atrás, no Rio de Janeiro, em reunião no Instituto Eu Defendo, o jurista católico pró-vida, Dr. Paulo Silveira Martins Leão Júnior foi enfático: “a vida humana é o fundamento necessário de tudo o que diz respeito ao indivíduo e à sociedade humana. Todos os direitos estão relacionados à vida humana e de alguma forma dela dependem. Trata-se de um dado lógico evidente que compõe o direito natural da humanidade”.3 E ressaltou: “No Brasil, a Constituição Federal em vigor proclama como primeiro dentre todos os direitos individuais e coletivos, a ‘inviolabilidade do direi to à vida’ (vide art. 5º, caput). A Constituição também estabelece que é um dos objetivos fundamentais da República, ‘promover o bem de todos, sem preconceitos… de idade e quaisquer outras formas de discriminação (vide art. 3º, IV). Portanto, a vida humana em nosso país está protegida constitucionalmente antes do nascimento, além de o ser pela lei civil e penal.”4
“Mesmo assim, persiste a obsessão do governo em impor goela abaixo a legalização do aborto, conforme as diretrizes do PNDH3″, frisou enfaticamente Paes de Lira.
E enquanto ocorria, de modo muito pacífico, o ato público nas escadarias da Catedral da Sé, apareceram algumas feministas, com cartazes também bastante agressivos, provocando o início de um pequeno alvoroço, que teve de ser contido com o apelo que fizemos: “Cada cidadão, no contexto democrático, tem o direito de se manifestar.” Rogamos para que não aceitassem provocações e que o ato mantivesse a proposta de não-violência. O clima ficou um pouco tenso e percebi que havia risco de uma perturbação intempestiva. Dos dois lados havia cartazes agressivos. Do lado pró-vida, um banner trazia a estampa da ministra Eleonora Menicucci com uma inscrição embaixo: “Assassina”. “Forte demais, realmente”, comentou comigo Pe. Berardo Graz. E do lado pró-aborto, o que mais chamou a atenção foi um cartaz com os dizeres: “Tirem seus rosários dos nossos ovários”.
Foi quando um dos jovens ali presentes (só podia se chamar Moisés!) fez uso da palavra, e como um general em meio ao campo de batalha, ergueu a voz para levantar o moral dos soldados. E o nome de Cristo Rei ressoou por toda a praça, com uma sonoridade límpida, a alcançar o coração e a consciência de todos os que estavam ali, e que ficaram num silêncio profundo, “pois ninguém no passado foi tão amado por todos os povos, nem jamais será no futuro, como Jesus Cristo“.5 E mesmo assim, algumas feministas ainda tentavam alguma turbulência com o conhecido argumento ao direito das mulheres ao próprio corpo, etc., quando pouco depois do meio-dia - hora do Angelus - em que os sinos ribombaram de modo solene, rogamos para que os pró-vida não aceitassem as provocações, e então o jovem Moisés, novamente com voz firmíssima, pediu para todos se ajoelhassem e saudassem a Virgem Santíssima com a Ave-Maria.

Cidadãos pró-vida rezam a Salve-Rainha nas escadarias da Catedral da Sé (SP)
Irmã Aparecida, com o hábito a evidenciar sua condição religiosa, também proferiu a Ave-Maria, ao que cada um foi se ajoelhando, até mesmo os transeuntes que por ali passavam, naquela hora. E então, pedi à marianíssima Mariângela Consoli de Oliveira, de São José dos Campos, que estava próxima, a rezar a Salve-Rainha. E após ouvirem “Eia, pois, advogada nossa!”, as feministas foram se retirando, em silêncio. No final da oração, Anderson exclamou radiante: “Viva o Santo Rosário!” Foi um instante memorável, certamente um dos mais tocantes, a confirmar o poder da oração nesta batalha efetivamente espiritual. E também muito gratificante expressar publicamente a nossa fé, como faziam os primeiros cristãos. Hoje, muitos católicos confortam-se no comodismo de aceitar o laicismo para justificar expressar a fé apenas quando convém, quando podem ainda tirar algum proveito. No atual contexto de pluralismo e relativismo, ficou fácil ser católico por conveniência. Expressar portanto a fé publicamente, quando forças diversas e adversas quer encerrar os católicos autênticos ao gueto privatista, foi um dos momentos de grande emoção vividos na caminhada em defesa da vida. É o ensimamento do Catecismo: “O homem deve ‘poder professar livremente a religião, tanto em particular quanto em público’”.6 Daí a alegria (muito consciente) de estarmos no coração de São Paulo fazendo ecoar para todo o Brasil o clamor pela vida: “Vida, sim; aborto, não!”, bradamos várias vezes diante do Forum João Mendes Júnior.
Para que todos tenham vida
Muito comovente também a caminhada da praça da Sé até o Fórum João Mendes cantando “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância!”7 No trajeto, comentei com Mariângela que aquilo que cantávamos quando adolescentes no canto de comunhão, no interior da igreja, estávamos agora cantando nas ruas. Não se tratava mais de uma procissão de uma festa religiosa local, mas um movimento crescente da Igreja, cuja questão da defesa da vida é onde sopra hoje mais fortemente o Espírito Santo. E mais ainda: que nos leva à séria reflexão sobre a verdadeira dimensão do homem e da mulher na pedagogia de Deus, no mistério da identidade de cada pessoa, imagem e semelhança do Criador, em meio aos condicionamentos do mundo, cujas estruturas e lógica de poder nem sempre promovem a verdade do ser e a integridade da pessoa. E nesse sentido Maria emerge como aquela que primeiro acreditou e aceitou em seu coração o Reino anunciado por Jesus, para além de todo conflito humano, na relação de efetiva complementaridade e mútuo serviço que homem e mulher são chamados a viver para a plenitude na vida verdadeira, em Deus. Por isso, a Salve-Rainha imperou naquele instante, porque Maria falou aos seus, e assegurou a paz, pois “Maria pode falar francamente, porque seu coração está orientado para o céu mais do que o dos outros discípulos”.8
Viva Dom Luiz!

“A mentira perdeu”: Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo emérito de Guarulhos (SP), esclarece sobre apreensão do documento “Apelo a Todos os Brasileiros e Brasileiras” e posterior determinação de devolução pelo Tribunal Superior Eleitoral. O documento pró-vida será distribuído nos próximos meses
Recebemos festivamente Dom Luiz Gonzaga Bergonzini como exemplo de pastor comprometido com radicalidade do Evangelho. E efusivamente exaltamos: “Viva Dom Luiz!”
Com 75 anos, Dom Luiz não se aposentou. Com ardor e entusiasmo, conclama os jovens a descobrirem a alegria da vida e a se dedicarem na missão evangelizadora. A Igreja sempre flutuou acima das tempestades temporais. “Isto será quase uma regra na Igreja: administram-se, como se pode, os acontecimentos inesperados”.9 E nas horas dos impasses mais agudos da história, como agora na luta por fazer o governo reconhecer o direito a vida, desde a concepção; os bispos, sucessores legítimos dos apóstolos, devem estar a frente do povo de Deus, que é o povo da vida, a recordar ao povo cristão o valor e o sentido da vida nova e verdadeira anunciada por Jesus. “O que há de novo e de inaudito no cristianismo é a revelação de uma nova vida”10, a vida digna como condição da vida plena.
E lá estava Dom Luiz, no meio do povo, no coração da grande urbe, a suscitar o ânimo e a afirmar a verdadeira identidade católica da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, no Fórum João Mendes Júnior, protocolou uma ação visando evitar que feministas usem o nome de “católicas” para confundir o povo cristão, gesto este vindo de um bispo para reforçar de vez a posição da Igreja em rechaçar a ideologia e os eufemismos das feministas que querem se passar por católicas para justificar a flexibilização da sã doutrina, em estratégia sutil de engodo, visando corroer e minar a fé cristã. Agindo asssim, Dom Luiz sabe que “sob a mão de Deus, nada de valioso se perde”.11 Ganha o testemunho da fé, ganha a vida, pois a Igreja não combate em vão.

Homenagem às vítimas do aborto: balões vermelhos subiram ao céu
Ao final do evento, com a benção de Dom Luiz, foram soltos balões vermelhos, para lembrar o sangue das vítimas inocentes, imoladas a cada dia, a cada aborto cometido, em tantas partes do mundo. São milhares de indefesos, privados do direito a vida, que precisam agora da nossa determinação e coragem, para estancar a sede de tanto sangue, que os fortes do mundo, em cálculos de lógica, tentam justificar no âmbito legal. Daí o clamor pela vida que ecoou no coração de São Paulo, esperando tomar todo o Brasil, a chegar na mesa de decisões do Palácio do Planalto, e também nos gabinetes dos parlamentares em Brasília, para que possamos afirmar legislação e vida, se quisermos realmente o Brasil esplêndido.
Notas:
1. Stefano de Fiores e Salvatore Meo (Org.), Dicionário de Mariologia, Verbete “Santa Maria”, de L. De Candido; Ed. Paulus, p. 1194, 1995, São Paulo.
2. Catecismo da Igreja Católica, 2270
3. Paulo Silveira Martins Leão Júnior, O Direito Fundamental à Vida dos Embriões e Anencéfalos, artigo publicado em Direito Fundamental à Vida, coordenado por Ives Gandra da Silva Martins, p. 225, Centro de Extensão Universitária e Editora Quartier Latin do Brasil, 2005, São Paulo.
4. Ib. pp. 225-226.
5. Carta Encíclica do papa Pio IX, Quas Primas, 4, Edições Cristo Rei, p. 18, 2011, Belo Horizonte
6. Catecismo da Igreja Católica, 2137
7. (http://www.youtube.com/watch?v=XCLtAeWBl84&feature=related)
8. Stefano de Fiores e Salvatore Meo (Org.), Dicionário de Mariologia, Verbete “A Mulher no Cristianismo Primitivo”, de R. Aguirre; Ed. Paulus, p. 1194, 1995, São Paulo.
(Ib, p. 947)
9. Georges Suffert, Tu és Pedro, Editora Objetiva, p. 31, Rio de Janeiro.
10. Josef Holzner, Paulo de Tarso, Editora Quadrante, p. 87, São Paulo.
11. Ib. p. 56.
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