
Dom Fernando Saburido, o bispo de Olinda e Recife, é apresentado como um moderado. Sua escolha como pastor da Arquidiocese pernambucana foi bem vista pelo que os jornais demonstraram ser uma maioria de católicos ressentidos com a atuação do agora emérito, o bispo Dom José Cardoso Sobrinho, considerado muito radical, um canonista representante do “amor à lei”, do rigorismo capaz de defender a vida de uma criança mesmo quando ela se encontra no ventre de outra criança.
Capacidade essa que Dom Saburido também tem, mesmo quando expressa-se mal:
A Igreja defende que o aborto deve ser evitado. Mas é claro que tem que ver as condições médicas. Se existe um risco muito grande, há um consenso nesse sentido, então é algo a se considerar.”
O registro da afirmação de Dom Saburido foi realizado pelo jornal Diário de Pernambuco e preocupou organizações pró-vida como a internacional Human Life, para a qual o bispo deveria clarificar o comentário dado à imprensa, de modo a demonstrar que ninguém poderia insinuar que o prelado defende qualquer permissividade à prática do aborto.
Para o presidente da Human Life, o padre Thomas J. Euteneuer, uma afirmação semelhante daria munição para militantes pró-aborto explorarem um falso hiato na clara posição da Igreja no que diz respeito à condenção total da prática do aborto provocado.
O bispo não tardou em responder às dúvidas sobre seu posicionamento pró-vida e divulgou, por meio de uma nota no site oficial da Arquidiocese, esclarecimentos:
No caso específico do Diário de Pernambuco, considero a entrevista tendenciosa, com perguntas repetitivas, e reconheço que posso não ter sido claro, deixando margem para dúvidas que desejo retificar através desta nota. Acredito que todos que me conhecem e sabem da minha história, jamais terão dúvidas do meu amor à Igreja e fidelidade ao seu Magistério.”
Não é fácil ser bispo católico. E pode ser mais difícil ainda ser um bispo que se adeque à característica de moderado! É que dos bispos, teoricamente, se exige um discurso pontual (clarificador), didático, para o ensino da Revelação e liderança. Essas exigências tornam um bispo radical, no sentido de cegá-lo para qualquer adequação entre a realidade histórica e a exigência doutrinal? Definitivamente não.
Cumprir com exigências didáticas do ensino, ou seja, com o apelo à capacidade de tornar o ensino compreensível a um grupo, é a justa medida da adequação à realidade histórica desse grupo. É uma tarefa do bispo que permite melhor desempenho da missão de Pastor, à exemplo de Nosso Senhor – que ensinava por meio de parábolas, uma pedagogia afim com a realidade histórica da época.
A radicalidade só é possível nesse modelo se compreendermos por radical uma adesão verdadeira à alguma coisa. E sob essa compreensão, sim, podemos dizer que o bispo que atende às exigências de sua missão é um radical.
Ultimamente a moderação, compreendida como capacidade para negociar valores imateriais, assedia o lugar da radicalidade em diferentes missões cristãs e a missão do bispo não está protegida desse assédio, sequer no campo do discurso.
Quando o jornal mostra Dom Saburido afirmando que a permissividade do aborto depende da situação, estamos diante de um discurso moderado, que se presta à negociação de valores, à troca.
É um discurso que trai a missão do próprio bispo, que não comporta a negociação do ensino da Revelação, mas que a opinião pública aprendeu a considerar uma exigência a qualquer discurso público aceitável.
A vida de um ser humano inocente é inviolável, ensina-nos a lei inscrita em nossos corações. Não se pode negociar a vida humana sob qualquer pretexto.
Dom Saburido sabe disso. E isso é impossível de ser demonstrado por um discurso moderado que não tem outra função senão a de atender imediatamente à exigência que a opinião pública aprendeu a considerar.
Nesse contexto, que saída para um bispo fiel à sua missão?
O discurso conciliador atende a exigências superiores à lógica da troca, da negociação, cuja resposta é o discurso moderador.
Atender a necessidades muitas vezes não percebidas pelo grupo ao qual se destina, é função do discurso conciliador.
Ele não é garantia de aprovação pela opinião pública, mas também não determina qualquer rejeição imediata. Exige reflexão! E por isso é superior à lógica da troca: questionado pela realidade histórica, o discurso conciliador não responde para cessar os impulsos que geraram a questão, mas age para coordená-los. É uma lógica de transcendência.
Essa lógica não exige respostas imediatas, mas perguntas imediatas que contribuam para uma abertura do grupo ao que for apresentado pelo discurso conciliador.
Na prática, ele também considera alguma exigência da opinião pública, mas a vê como meio para iniciar sua ação discursiva e não como fim para para essa ação. Levando-se em conta a entrevista de Dom Saburido, essas poderiam ser as modificações que o uso do discurso conciliador desencadearia:
P:Então, o senhor é contra o aborto em qualquer situação?
R: Mesmo na situação em que há consenso dos médicos sobre o procedimento de aborto, o aborto mata uma criança? Sabemos que sim e sabemos que há alternativas para uma criança indesejada, fruto de um estupro ou não. Quais são essas alternativas? Essa deveria ser a pergunta diante do dilema do aborto.
P:Se a menina corre risco de vida, o aborto poderia ser uma opção?
R: Os médicos escolhem que vida matar ou que vida salvar primeiro? Sabemos que a missão do médico é salvar vidas e não eliminá-las sob qualquer pretexto.
P: Mas teria apoio do senhor ou o senhor condenaria essa decisão [pelo aborto]?
R: Apóio os médicos que salvam vidas. Não são eles que merecem nosso apoio? Médicos que deliberadamente tiram a vida de alguém, ainda mais de uma criança, não cumprem sua missão.
P:Então se a criança grávida corre risco de morrer, o aborto deve ser uma opção a ser pensada para preservar a vida da criança?
R: O aborto é sempre um mal. Por que seria necessário matar um bebê? Se a menina-mãe corre risco de vida, temos um dilema que cabe aos médicos resolver sem trair a missão de salvar vidas. Sei que a sociedade espera que todos os esforços dos médicos tenham essa meta: salvar vidas. Depois sabemos que nem os médicos podem garantir se a menina-mãe morrerá quando eles fizerem tudo para salvá-la, mas qualquer um pode garantir que o bebê morrerá quando os médicos fizerem tudo para abortá-lo.
Nos exemplos fica claro que os questionamentos iniciais são “corrigidos”, de modo a dar espaço a respostas que não endossem a opinião pública – de que em casos como esse o aborto é um mal necessário -, mas que também não a confrontem de forma aparentemente hostil. Ao contrário! As respostas, todas elas, estão centradas não em responder imediatamente ao que foi questionado, mas a permitir que a audiência que conhecerá essa resposta possa refletir sobre ela. E não se reflete, geralmente, sobre aquilo que fere nossas concepções de mundo, mas sobre aquilo que nos permite avaliá-las.
É nisso que se percebe a capacidade de transcendência do discurso conciliador, quando ele possibilita que o público se concilie com sua capacidade própria de ser melhor que as consequências questionáveis de suas contradições.
Acredito que esse discurso serve à missão de ensinar e evita mal entendidos.













Wagner, não dá para apertar um REW no tempo e colocar as suas respostas no lugar das de Dom Saburido não??
Não dá pra fazer um review… Mas quem sabe um foward? =) Rezemos para que esse episódio seja superado por ações afirmativas. =D