
Pelo menos cinco vezes… Com os Arianos e os Albigeneses, com os céticos Humanistas, depois de Voltaire e depois de Darwin, a Fé aparentemente havia naufragado. Em cada um dos cinco casos não foi a Fé que naufragou”. – G.K Chesterton (The Everlasting Man, Garden City, NY: Doubleday
Image, 1925, 254)
A vida de São Tomás de Aquino não é de todo desconhecida. Ao menos o nome dele alguém, por menos conhecimento que tenha sobre catolicismo, já deve ter ouvido alguma vez na vida e deve saber que foi um santo importante.
Eu sei pouco sobre o dominicano São Tomás. E por restar-me a ignorância, neste dia em que a Igreja celebra a vida do santo, gostaria de me deter na época de Tomás, o século XIII. Nesse período histórico a Igreja enfrentou os Gnósticos, os Maniqueus e, ainda, o Islamismo. A Igreja também rejeitava Aristóteles, filósofo estudado pelos mouros, pagãos e sarracenos, e que seria, no futuro, um dos alicerces da teologia católica.
E nesse cenário a Providência suscitou São Tomás… Homem rico, aderiu a uma ordem mendicante, a dos dominicanos. Ele cristianizou aristóteles, deu ao rei São Luís IX – o Rei Cruzado – o argumento contra os Maniqueus e também feriu de morte o gnosticismo.
São Tomás revitalizou a identidade católica. Pode-se dizer que, no contexto de seu tempo, ele era inesperado. E no entanto Deus o suscitou não só para o século XIII mas para toda a história da Igreja.
Vejo o exemplo de São Tomás como sinal de contradição – de salvação! – para o tempo dele, mas também como referência para compreender quem são, afinal, as surpresas da História.
Os que permanecem na vontade de Cristo!
Permanecer, apesar de tudo, é o que há de realmente inesperado. Evadir-se é sempre esperado… Desistir… Renunciar… Também! Daí compreende-se que não são os liberais, os modernistas, os hereges, os céticos, os românticos… Não são eles as surpresas do percurso.
As surpresas são aqueles que se permitem ser sinal de contradição. Os que tem constância e oferecem com alegria a própria vida, num martírio incruento ou não. Aqueles que o fazem com a disposição dos privilegiados, como uma certa honra solidária que se propõe a ajudar as almas.
Nossos tempos são tempos de surpresas. E, sob pena de parecer tolo, eu confesso celebrar que a nossa época reúne em si muitas, muitas surpresas à semelhança do que São Tomás representou para sua época.
Fala-se que o século XX foi um século de tantos mártires como nunca se viu na história da Igreja. Vem a corroborar com isso a cerimônia de 28 de outubro de 2007, no Vaticano, na qual 498 católicos mortos durante a Guerra Civil Espanhola (1936 e 1939)foram beatificados. Foi maior cerimônia de beatificação da história.
E o sangue dos mártires é a semente do Evangelho, sabemos. E as sementes germinam em nossa época.
Diga que não aquele que não souber perceber os sinais dos tempos… É fato que o catolicismo esteve como num cenário de pós-guerra mais uma vez. E não é à toa que isso leva muitos a desacreditarem. Mas é bom lembrar que mesmo o pesadelo da Europa após a II Guerra Mundial acabou.
A Igreja venceu a guerra contra a heresia do modernismo que tanto mal fez ao catolicismo. Os modernistas continuam e agora até vendem milhões de cópias dos seus Cds e DVDs, mas e daí?
Havia muitos liberais durante a Contra-Reforma e no Concílio de Trento, também. Houve liberais no Concílio de Niceia (os Arianos) e da Calcedônia (os Monofistas).
Deus está no comando de forma misteriosa e inexplicável como Ele sempre fez. Os sinais disso estão por toda a parte. Abundam as conversões, crescem as vocações, e os padres mais jovens são um poço de ortodoxia.
Pode-se dizer que os piores períodos da história são sucedidos por períodos gloriosos. O século X foi sucedido por São Tomás de Aquino por exemplo! E por São Francisco de Assis e Santa Catarina.
Na Renascença os Papas da família Bórgia e numerosos abusos do tempo deles foram sucedidos por Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Sales, Santa Teresa d´Ávila, e pela gloriosa Reforma Católica.
E hoje?
Tenho a idade de 26 e somente há dez anos as coisas começaram a mudar para mim. Na época conheci, por acaso, o trabalho daqueles que hoje seriam conhecidos apologistas católicos. E como me intriga ver, hoje, dez anos depois, muitos outros jovens que também surpreendidos por esses desbravadores – alguns egressos do protestantismo num período em que o comum era exatamente o egresso de católicos para as fileiras protestantes – decidem também eles frutificar.
Surpreender.
As referências de apologética, então novidades há dez anos, hoje são surpreendidas por novos canais de evangelização, muitos deles na própria internet, como por exemplo os blogs. E, curiosamente, alguns novos surpreendidos chegam aos canais inspiradores de tudo isso por meio deles.
Há mais jovens brasileiros considerando temas religiosos, hoje, que há vinte anos. Há mais veículos de comunicação católicos hoje… E embora haja necessidades de melhorias, há uma crescente descoberta e valorização da ortodoxia.
Como disse, os liberais heterodoxos e heréticos continuam um problema. Mas eles são apenas poeira no grande cenário dos planos de Deus. Assim como foram os Egípcios e os Assírios, ou os Babilônicos, Persas, Gregos, Romanos, Nazistas ou Comunistas soviéticos (todos imensamente poderosos em suas épocas). Eles não fazem parte dos planos de Deus, como aqueles que compreendem o valor da ortodoxia, porque eles não se ajustam aos planos de Deus. Eles se rebelaram, e portanto estão fora dos planos. É por isso que eles são irrelevantes.
Acredito que a Igreja resistiu às amarras da secularização. E independentamente do que aconteceu, os dogmas e a estrutura da Igreja sobrevivem intactos. Mesmo no período do pós Vaticano II, Concílio que ainda divide muitas opiniões, nenhum dogma contrário ao Tesouro da Tradição foi promulgado. E nunca tivemos uma sucessão de tão bons Papas, por mais que alguns levantem fortes críticas a eles.
Alguma coisa está acontecendo. Eu não sabia nada sobre apologética católica há pouco mais de dez anos e eu sempre estive na Igreja. Sempre. Agora, raramente alguém que esteja virtualmente em condições semelhantes a que estive poderá dizer que nunca teve contato com o que seja a Fé ortodoxa.
No Brasil, por exemplo, nunca se falou tanto sobre a Cultura da Vida, tão fortemente enraizada nos valores do Evangelho. Nunca antes a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil viu-se fazer concessões a membros de movimentos ortodoxos ou a eles relacionados, ao ponto de dar-lhes comissões em seu organograma.
E para uma época de intensa secularização em todo o mundo, Deus suscitou um Papa como Bento XVI. Um intelectual reconhecido pelos mais heterodoxos. Um Pastor cuja liderança o mundo tentou prejudicar desde o início e continua sem êxito. As respostas a tudo isso são quase rompantes de incrível adesão: desde os universitários de La Sapienza até os recém-convertidos Anglicanos “ultra-conservadores”.
Germina nova era da redescoberta da identidade católica, promovida não por aqueles que fazem o que é esperado e desistem, insurgem-se, renunciam, apostasiam. Não. Mas promovida por aqueles que surpreendem, que contradizem suas vontades, que se lançam para o infinito que só há em Deus.
Não sei se São Tomás de Aquino percebia que era um presente de Deus para a época dele. Mas por certo compreendeu o chamado a surpreender e assim Deus o elevou não somente por sobre os da época dele, mas até a glória dos altares.
Os piores períodos da história são seguidos por períodos gloriosos. Compreenda os sinais. Há uma nova primavera da Fé que começa.
Surpreenda.
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Texto inspirado na obra do apologista católico, Dave Armstrong, “Pensées on Catholic Traditionalism“.
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