“Apesar de crescer lentamente, podemos dizer que a boa semente do Concílio está crescendo. Assim também ocorre com nossa gratidão profunda pelo trabalho que o Concílio fez: ela também cresce. (…) A Igreja, tanto antes quanto depois do Concílio, foi e é a mesma Igreja, una, santa católica e apostólica, sua jornada atravessa o tempo; ela continua “sua peregrinação em meio às perseguições deste mundo e as consolações de Deus”, proclamando a morte do Senhor até sua vinda.” Papa Bento XVI, na alocução à cúria romana em dezembro de 2005.
No ano paulino o historiador Orlando Fedeli caiu do cavalo. O presidente da Associação Cultural Montfort definitivamente não sustenta a mesma posição do Instito do Bom Pastor (IBP) no que diz respeito à validade do Concílio Vaticano II.
Para Fedeli, adepto da “hermenêutica da ruptura” – condenada pelo Papa Bento XVI – o Concílio é inválido uma vez que teria “rompido com a Igreja de sempre“, com a Tradição.
O malabarismo do historiador beira ao delírio quando atribui ao Santo Padre a condenação à “letra” e ao “espírito” do Concílio, numa tentativa de fazer com que o Sumo Pontífice rejeite, por tabela, o Vaticano II – ao qual o próprio Papa afirma ser profundamente agradecido.
Fedeli não poupa esforços em sua cruzada de desinformação. Em resposta a um leitor sobre a validade do Concílio, o historiador cita as seguintes palavras do então Cardeal Ratzinger:
“A verdade é que o próprio Concílio não definiu nenhum dogma e conscientemente quis expressar-se em um nível muito mais modesto, meramente como Concílio pastoral; entretanto, muitos o interpretam como se ele fosse o super dogma que tira a importância de todos os demais Concílios.”(Cardeal Joseph Ratzinger, Alocução aos Bispos do Chile, em 13 de Julho de 1988, in Comunhão Libertação, Cl, año IV, Nº 24, 1988, p. 56).
Nem um super dogma, nem uma super heresia. Se compreendidas segundo o ânimo de Orlando Fedeli para com o Concílio, as palavras de Ratzinger ganham uma conotação bem diferente do pensamento do Papa. Se por um lado o Santo Padre, ainda quando cardeal, rejeita uma interpretação dogmática do Vaticano II, por outro lado ele afirma a legitimidade desse:
“Nas discussões desses 40 anos sobre como realizar o cristianismo hoje, com o interpretar e realizar o Concílio Vaticano II, necessariamente também nasceram polêmicas e debates: mas uma coisa que não se debate com nada é nada, certo? Justamente as polêmicas demonstram que ali estava realmente presente uma posição que valia a pena defender, viver. Eu falaria de uma eclesialidade aberta e viva, fora das organizações e das estruturas costumeiras, mas totalmente enraizada nas verdadeiras raízes da Igreja.” – Cardeal Joseph Ratzinger em entrevista à Comunhão e Libertação.
No site da Associação Montfort não é raro encontrar deboches mal disfarçados de críticas ao Vaticano II. Um deboche que se por um lado envenena leitores àvidos por um remédio à atual crise da Igreja, também contamina o próprio Fedeli.
Pela primeira vez, contudo, foi possível perceber a nebulosidade que cerca o pensamento do historiador quando o assunto é o Vaticano II. Quando o Papa autorizou o Instituto do Bom Pastor – formado por dissidentes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que, como Fedeli, rejeita o Vaticano II – a criticar o Concílio, Fedeli estava certo de que os ventos sopravam na direção do consultório oftalmológico que o historiador frequenta.
A situação era maravilhosa: o Papa deu sinal verde para críticos que supostamente dividiam as mesmas angústias de um homem que desejava ver a Igreja vencer a chaga da modernidade com o remédio da condenação total ao Concílio que abriu as janelas do catolicismo para o mundo moderno.
Como seria útil o IBP! Como seria bom se por meio de uma amizade de longa data a Montfort pudesse “colar” no Instituto afim de gerar sacerdotes que dariam à Igreja o remédio feito pelo próprio Fedeli para vencer o “estrago” de um Concílio.
Foi um erro. E ironia terrível! Dois anos antes da confusão acontecer, Orlando Fedeli divertia-se em arremessar uma das vozes do carismatismo no Brasil, o Prof. Felipe Aquino, contra o Instituto do Bom Pastor (IBP). Na tentativa de desqualificar o professor, Fedeli oportunizou um encontro virtual deste com o padre Rafael Navas Ortiz, superior do IBP na América Latina (supostamente amigo de longa data do historiador e que, recentemente, lhe mostrou que sua amizade não tem preço – literalmente…).
No encontro, denominado de “polêmica” pelo site da Montfort, o professor Aquino e padre Navas falavam sobre a função do IBP e sobre a “falibilidade” do Vaticano II. Nos e-mails da “polêmica” somos apresentados a um padre Navas bem diferente do que conhecemos nas últimas semanas. Por uma estranha razão os esclarecimentos do sacerdote ao professor são ricos em ironia, semelhantes ao trato que Orlando Fedeli dá aos que lhe interrogam.
Há momentos em que as respostas do padre Navas, caso não estivessem em espanhol, poderiam perfeitamente serem respostas do próprio Fedeli, amigo que, conta-se, foi o responsável pela saída do padre Navas da FSSPX.
Os fatos recentes, contudo, somente revelam os motivos da mansidão do Prof. Felipe Aquino: ele sabia que as atividades do Instituto do Bom Pastor não chegam nem perto do que dava alegria ao presidente da Montfort. Como explica o próprio padre Navas, em nota oficial, a missão do IBP é colaborar com o Papa – e Sua Santidade não afirma em favor da “ilegitimidade” do Vaticano II.
Ao notar que o IBP não sustentava as mesmas idéias estranhas da Montfort, Orlando Fedeli começou o contra-ataque que levou à saída do IBP do Brasil.
A estratégia, agora, é simular um “racha” no IBP, como se em alguma ocasião o Instituto tivesse, como a pretendeu a Montfort, traído o Papa.
Os loucos gozam de inimputabilidade. Somente por essa razão seria injusto acusar o presidente da Montfort de má-fé. Ainda que sua mais recente trapalhada cubra de nuvens as intenções do historiador.
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No blog do Jorge Ferraz: “A casa seria um instrumento para o professor Orlando atingir um dos seus mais ousados objetivos: O ter padres sob o seu comando direto.”
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Imagem: aquarela da galeria de EEF.












