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Arquivo para 1 julho, 2007

Fé e vida em Brasília

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Nordestino bebe mais água aos 17° em Brasília que aos 25° em São Luís. E o melhor de tudo: não sua nada – quase nada!

Brasília é a cidade do plano-piloto, mas é também a cidade da cruz, como tantas outras cidades brasileiras. Não se comenta tanto, mas o primeiro gesto do urbanista Lúcio Costa, que projetou a cidade, foi desenhar uma cruz, um sinal de posse do território a ser moldado.

Uma cruz estilizada, é verdade, de linha côncava no sentido horizontal. Sentido tomado por uma escala residencial que deixa tudo perto de casa: a escola, o hospital, o supermercado. As “super-quadras” da cidade fazem com que todos compartilhem uma espécie de quintal urbano, onde não se privatiza o chão… Por exemplo: muitos prédios não têm garagem no térreo, nem muros ao redor, o chão é coletivo de fato e não põe obstáculos a quem por ele passa.

Brasília é uma cidade de terra vermelha cercada por ternos e gravatas. Uma cidade sem cachorros ou gatos pelas ruas. Mas, se faltam esses, sobram outros animais: os pichadores, que levaram a sério a experimentação de formas e traços que a cidade propõe.

A capital do país é um mundo de repartições públicas repleta de crucifixos, imagens, orações e louvores. É terra de um Cristo negro, pregado na entrada do Salão Negro do Senado. É terra de São Francisco de Assis, presença comum em gabinetes de senadores e deputados federais.

Em Brasília a semana começa com uma reunião da Assembléia de Deus no Supremo Tribunal Federal, logo cedo. Os servidores evangélicos fazem orações às segundas. Pela terça-feira tem louvor em algum plenário das comissões da Câmara, logo no início da noite: é o grupo Jubileu que também tenta trazer a questão ambiental para dentro da igreja.

Os corredores mais importantes da capital federal são um verdadeiro Big Brother: nunca foram tão cheios de holofotes e câmeras de TVs. Alguns reclamam, mas dizem que já se acostumaram. “Certa vez ligaram do Pará e contestaram a postura de um rapaz que mastigava chiclete logo atrás do Presidente da Câmara”, me contaram. Serviço de utilidade pública: não mastigue chicletes quando as câmeras estiverem ligadas.

Em Brasília tudo é notícia. A catedral da cidade cabe no Senado, bem logo ali no tapete azul onde um homem que trabalha no setor de limpeza resolveu um dia desenhar o monumento religioso com auxílio do aspirador de pó.

Viver em Brasília é habituar-se com o clima seco, muitas vezes frio e ter na ponta da língua uma resposta ao turista mal intencionado: “Os ladrões que temos aqui foram vocês que mandaram!”

Trabalhar em Brasília é habituar-se com o sistema de segurança que todos os dias escaneia sua bolsa, registra seu rosto e sabe todos os seus passos. É também saber desenvolver uma técnica específica para trabalhar em meio ao barulho de manifestações e protestos dos mais criativos: desde aquele que usa um trio elétrico ao lado da janela de sua sala, gritando palavras de conscientização… Até aquele que não pede licença para entrar e sai quebrando tudo (pacificamente, claro!).

A verdade é que todos um dia já pensamos em destruir Brasília. Mas ela sobreviverá, certamente. Brasília sobreviverá porque nasceu de um sonho, de um gesto de fé.

***

Esta foi a bancada nordestina que conheci nessa semana na capital federal. Espero reencontrá-los um dia construindo o Brasil que a gente quer:

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