
“Não se trata de forma alguma de um movimento contra a religião cristã – na verdade não é contra religião alguma”. – Roberto Mitsuo Takata
A frase em destaque está espalhada pela blogosfera católica, numa resposta às críticas a respeito do movimento de ateus que defende a retirada de imagens sagradas e crucifixos das repartições públicas brasileiras. O movimento foi criado no final de 2006, é uma iniciativa de “céticos, inquisidores da razão” como o biólogo, Roberto Mitsuo Takata, e o engenheiro, Daniel Sottomaior Pereira.
O adjetivo entre aspas tomei emprestado do título de uma matéria da revista Galileu, n°116. A reportagem entrevistou Takata e Sottomaior, as poucas palavras deles são contextualizadas pelo seguinte subtítulo da matéria: Eles declararam guerra a astrólogos, religiosos, ufologistas, tarólogos, curandeiros e místicos em geral.
A revista científica, Galileu, informa que os céticos declaram GUERRA aos religiosos. E dentre os céticos que a matéria cita estão extamente aqueles que “de forma alguma [promovem] um movimento contra a religião cristã”, como diz exaustivamente Takata em respostas a vários católicos.
É uma contradição que Takata, “um crítico ferrenho da imprensa na área de ciência e de saúde”, não se deu ao trabalho de combater. Justo ele que, no site Observatório da Imprensa, analisa os discursos midiáticos com precisão.
Ainda que não tivesse interesse na própria defesa, por conta da afirmação de “guerrear contra religiosos”, Takata bem que poderia defender o amigo Sottomaior de tal rótolo. Afinal, já partiu em defesa pública do amigo em outra oportunidade.
Mas contradições fazem parte da vida. O Takata que democraticamente defende o respeito às minorias religiosas que não têm seus objetos de culto expostos em repartições públicas é o mesmo Takata que já tentou silenciar opiniões de uma minoria contrária a teoria da evolução, tão cara ao biólogo.
Em uma atitude diferente do ideal de democracia, Takata condenou o Jornal da Ciência (JC) por publicar uma carta-artigo de um partidário do “Design Inteligente”, uma teoria oposta ao evolucionismo. Por diversas vezes o biólogo tentou convencer o editor do JC, órgão da SBPC, de que o jornal não deveria dar voz a “criacionistas”, uma vez que o órgão é “um informativo sobre ciências, e não sobre religião”.
Em resposta, o editor lembrava que não era “justo nem adequado discutir a questão do criacionismo x evolução publicando apenas a opinião dos evolucionistas”. Nada estranho ao jornalismo que tem por obrigação ser polifônico e polissêmico. Em outras palavras: ouvir os dois lados, respeitar as minorias.
Takata diz que não tem nada contra a religião. E afirma isso sempre que critica qualquer idéia que se aproxime de algo religioso, como é, na opinião do biólogo, o caso do “Design Inteligente”. O que diria Sigmund Freud sobre tantas auto-afirmações?
Além de não ter nada contra a religião, Takata também *não* demonstra (em nenhum artigo especial de autoria dele, disponível na internet) qualquer reação negativa ao fato de a ONG, da qual ele é membro, ter sido inspirada pela banda “Bad Religion”, cujo símbolo é a negação da religião cristã.
Atenção. O texto que segue não é recomendável aos mais tradicionais! Neste momento defenderei um dos mais controversos bispos da Teologia da Libertação: Dom Pedro Casaldáliga. É um trabalho muito difícil, mas não posso evitar.
Dom Pedro Casaldáliga foi assediado por Daniel Sottomaior – outro representante do tal movimento – que procurou o bispo em agosto de 2006, em virtude de um artigo de Dom Casaldáliga a respeito do artigo 2º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. No artigo, o Bispo (em virtude da miopia do marxismo dele) criticava a Igreja Católica por nem sempre respeitar tais Direitos.
Era tudo o que Daniel precisava: um Bispo católico que endossasse a campanha. “Uh!” E para conseguir isso, de acordo com os e-mails publicados no site do movimento, Daniel não poupou um “Estimado D. Pedro”, “homem da Igreja” (com I maiúsculo mesmo), “é com grande reverência que o procuro”.
Após a reverência, Daniel comentou a respeito do projeto de retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas e conseguiu que o Bispo opinasse sobre a questão, mas não recebeu de Dom Casaldáliga sequer uma menção de apoio à INICIATIVA, menos ainda a autorização para usar o nome dele na promoção da campanha a qual se empenhava.
Eis um trecho do e-mail de Dom Pedro Casaldáliga publicado no site do movimento:
“Esta-se criando uma certa confusão sobre uma campanha de laicismo anti-religioso, um projeto intitulado “Brasil para todos”, no qual eu participaria ou até seria o principal organizador do projeto. Lamentável. Você sabe que respondi à pergunta sobre símbolos religiosos em lugares públicos, oficiais…, mas no entrava numa campanha deste tipo, menos ainda como um protagonista principal”.
Note: Dom Casaldáliga qualifica a campanha como ANTI-RELIGIOSA.
Daniel tinha informações sobre o Bispo. Mas, provavelmente, não deu muitas informaçõs a Dom Casaldáliga a respeito da Sociedade da Terra Redonda, uma ONG de ateus, fundada em 1999, da qual tanto Daniel Sottomaior (editor da área S.T.R. da Sociedade da Terra Redonda) quanto Roberto Takata são membros e cuja base é “defender os direitos dos Ateístas na sociedade”. A ONG considera a religião uma “amarra”.
Satisfatória a OPINIÃO do bispo – e nunca o apoio… -, houve publicação do nome de Dom Casaldáliga na lista dos religiosos que apoiavam a INICIATIVA, o movimento em si. Uma atitude, no mínimo, irresponsável… Mas um bom indício de que o apoio das FALSAS Católicas Pelo Direito de Decidir (sim, elas apóiam o movimento, é claro!) ainda não contemplou as exigências de uma assessoria qualificada para Takata, Sottomaior e seus companheiros de defesa dos direitos dos “Ateístas” na sociedade.
O site foi reformulado. Tiraram o nome do Bispo, arrumaram o discurso massacrado pelo jurista católico Ives Granda, passaram uma maquiagem no laicismo (ateísmo?) que permeia todo site e, agora, não seria surpresa alguma se encontrássemo discursos do Papa Bento XVI manipulados de modo a confundir os católicos não-praticantes de que não há nada demais em retirar crucifixos e imagens de repartições públicas.
E tais são aqueles que se dizem desinteressados em atingir a religião: ateus militantes, desejosos de defender seus direitos.
Tanta militância logo logo atrairá a atenção de revistas semanais. Eu sugiro um título para a matéria da revista: “Iniciativa de céticos mente ter apoio de bispo católico e agora quer ser séria”. Um título longo, é verdade.
Sugestões? É só mandar um e-mail para a Globo… E a Globo tem revista: Época. Para falar com a Redação de Época é fácil: epoca@edglobo.com.br
Nas fotos: à esquerda, Roberto Takata, e à direita Daniel Sottomaior.
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