
Ok! Eu levei algum tempo para me convencer de que não houve erro de tradução. É sobre toda a polêmica em torno das palavras do Papa Bento XVI a respeito do divórcio ser uma praga… Bom, eu disse que polêmicas são estratégias que atraem inclusive a sustentação de quem se ressente com o que for polemizado! Polêmicas mexem com a gente principalmente quando miram em sentimentos caros, como o sentimento religioso.
Quero, então, corrigir a minha pressa em sustentar os valores traduzidos no discurso de Bento XVI, sem me deter na possibilidade de estar apenas sustentando a tal polêmica… Senhores o divórcio é, sim, uma praga! Não houve qualquer erro de tradução! A má interpretação da mídia (a desinterpratação?), sim, foi real e direcionou a atenção de todos – TODOS! – para a polêmica.
Reitero que o Ratzinger não praguejou qualquer coisa contra os divorciados. Falou contra o divórcio que faz do casamento qualquer coisa de sentimento e mesmo contrato… Engraçado é que os críticos agora dizem que a Igreja prega um casamento de contrato.
Com todo respeito à idade, carreira e titulações dos cronistas, articulistas e palpiteiros de plantão: tornar o casamento um mero contrato é justamente o que faz a mentalidade de divórcio! É claro! Se é só um contrato, pode ser desfeito, ainda que implique em complexidades jurídicas (cada vez menores para quem quer se divorciar, aliás!). Sacramento não é contrato e não pode ser desfeito.
Mas sobre isso de divórcio ser praga, mesmo nosso carismático João Paulo II já dizia tal coisa e nunca houve tanta polêmica assim, por isso… Pois é, o estigma “POP” atrai um tratamento bem diferente do estigma “REACIONÁRIO”. E não quero dizer que seja um tratamento melhor, tratando-se de Papas e de mídia… Bom, deixa pra lá.
Em 1981, João Paulo II mencionava que o divórcio é uma praga. Oficialmente, pode-se constatar isso na Exortação Apostólica Familis Consortio, assinada por ele:
http://www.biblia.inf.br/enciclica/familia_consortium.html
(…)
84. A experiência quotidiana mostra, infelizmente, que quem recorreu ao divórcio tem normalmente em vista a passagem a uma nova união, obviamente não com o rito religioso católico. Pois que se trata de uma ***praga*** que vai, juntamente com as outras, afectando sempre mais largamente mesmo os ambientes católicos, o problema deve ser enfrentado com urgência inadiável.
Nenhuma novidade! Mas, como as atenções estavam voltadas para a polêmica, qualquer referência anterior ao pensamento da Igreja sobre divórcio passou meio que batido, sob as lentes dos discursos gerados pela polêmica. Mesmo a CNBB (bom, não estou tão surpreso… mas isso é outro assunto!) lamentou um erro de tradução que não houve!
E nestes dias de convencimento pessoal recebi a colaboração do Claudemir Júnior:
Na verdade, o divórcio seguido de uma segunda união é uma praga mesmo. Não adianta querer aliviar. Mas, é uma chaga também.
A palavra latina *plaga* pode significar tanto “chaga” quanto “praga”. Desta ambiguidade temos as traduções diversas mundo afora. Em alguns idiomas, assim como no português, tivemos o termo traduzido como “praga”, em outros idiomas o mesmo termo foi traduzido como “chaga”. E, pelo que me consta, nenhuma das traduções estão erradas.
Mesmo assim, acredito que o Santo Padre, nesta ocasião, quis referir-se ao termo “chaga”, no sentido de “ferida”, “cicatriz”, “úlcera”, enfim. Ainda assim, a tradução para o português não estaria errada, pois, como podemos observar no dicionário Houaiss o vocábulo “praga” possui várias acepções, conforme podemos ver abaixo:
Praga
*Acepções*
■ substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo. FERIDA, CHAGA
2 imprecação, maldição
3 desgraça coletiva de grandes proporções; calamidade, flagelo
4 grande quantidade de coisas importunas ou nocivas
Ex.: p. de gafanhotos, p. de mosquitos
5 indivíduo ou coisa que aborrece, irrita, importuna
…
(entre outras)
Entretanto, toda confusão é causada por conta da tendência gnóstica que se tem de restringir os vocábulos a alguns poucos significados, deixando outros significados de lado. E, quando se pensa praga, se pensa logo em “maldição”, ou então em “desgraça coletiva”, ou “grande quantidade de coisas importunas ou nocivas”, mas, quase nunca em “chaga” ou “ferida”. Desta forma, o termo
parece soar distante do tal “politicamente correto”.
Se o Santo Padre, por um ou outro motivo, quisesse realmente dizer “praga” no sentido mais conhecido e restrito do termo, creio que teríamos uma imprecisão de tradução caso o termo fosse traduzido em português como “chaga”, pois, ao que me consta, “praga” pode significar “chaga”, mas não creio que o contrário se aplique, ou seja, não creio que “chaga” seja tão abrangente quanto “praga”.
De qualquer forma, quem traduziu não errou. Erra quem diz que o divórcio seguido de segunda união não é uma praga.
E, por fim, agora sou eu quem recorre ao tradutor das palavras do Papa Bento, numa tentativa de amenizar os milhares de anos no purgatório que devo enfrentar. Ai, Jesus!












