
Parece tão óbvio, mas só agora fui compreender melhor isso estudando storytelling, uma ferramenta de marketing pela qual as marcas (empresas) vendem conceitos, valores, universos próprios – e não meramente seus produtos – para o consumidor.
Resumindo grosseiramente é como se as marcas hoje não precisassem de uma emissora de TV ou produtora para colocar um “merchan” no meio da novela, do seriado, do filme. A marca mesmo faz sua história e põe lá seus valores, mais que seus produtos. E… Gera uma memória positiva sobre si.
Funciona? Sim, bastante. É por meio de histórias que o mundo virou mundo, inclusive… Nosso Senhor, por exemplo, contava muitas histórias para passar valores evangélicos. As parábolas! Embora explicadas apenas aos discípulos, elas eram úteis à multidão que difundia o munus do messias.
Em geral os grupos pró-aborto usam muito de histórias para comover as pessas à causa pró-aborto. Precisamente, distorcem muito as histórias… E como se conta uma história? Com personagens (protagonista e antagonista), cenários, e com uma narrativa (uma sucessão de acontecimentos). Mas, acima de tudo, storytelling é contar histórias do surpreendente, do que é fora do comum, do que ninguém ainda sabe. Não se trata de registrar uma ata, um histórico de eventos.
Uma viagem para Roma na qual se vê o Papa e as obras de arte seculares não é uma história para essa técnica. É que é justamente isso que se faz em Roma. Mas se alguém viaja pra Roma, ganha um beijo do Papa e vira inspiração para uma obra de arte… É esse o sentido de uma boa história.
A Igreja conta histórias pela vida de seus santos. Sempre temos feitos surpreendentes! E olha que temos muitos santos… Mas cada um com uma história mais interessante que o outro. O caminho para santidade, acredito, é o que faz das nossas vidas histórias bem interessantes.
É muito mais fácil eu aprender sobre o que é amar a Deus conhecendo a história de muitos santos que amaram a Deus, que simplesmente receber uma aula sobre o amor de Deus. A não ser que a aula seja diferente de contar dados: a origem do termo amor, as conexões filosóficas sobre o termo, o amor na teologia e, por fim, exercícios espirituais de amor a Deus.
Esse longo caminho dos dados funciona, devo reconhecer. Do contrário não estudaríamos nada! Mas funciona para quem está aberto ao estudo, para quem busca esse caminho. E para quem não busca? Aí as histórias funcionam melhor para gerar memória. Especialmente se elas são contadas por meio de imagens, vídeo.
O cérebro não distingue o sentimento de cenas reais da vida e cenas fictícias.
O medo ao ver um filme de terror é o mesmo medo de ser assaltado de verdade, por exemplo. Mas não é só uma questão de não distinguir sentimentos gerados em uma ação real ou em uma ficção. É uma questão de viver o que nos é contado.
Basta pensarmos nas novelas. Quanto elas mudaram a sociedade ao mostrar padrões, estilos de vida, que a grande maioria não tinha como valor… As novelas permitem que o telespectador viva pela história o que não viveria fora dela a princípio. Porém, se ele quiser viver o que aprendeu, já sabe mais ou menos como se faz, já tem memória para isso.
É como um beijo… Antes de beijar alguém pela primeira vez todo mundo sabe como é um beijo e sabe que um dia vai beijar pela primeira vez. E sabe, inclusive, como é que faz. Mais: sabe que está destinado a isso pois todas as histórias mostram beijos, logo, assim é o mundo e todos vamos beijar.
É este o poder das histórias: influenciar padrões, repassar conhecimentos (ou destruí-los), atrair a atenção das pessoas especialmente num período em que atenção é algo difícil de conquistar.
No meio pró-vida me chamou atenção, certa vez, a história da mãe de um bebê anencefálico que gravou um vídeo contando o que acontece durante uma gravidez desse tipo. O que acontece? Compras com as amigas, aulas e pilates, canções para o bebê, passeios e outras atividades que demonstram a normalidade de uma gestação de uma criança deficiente.
Essas atividades eram mostradas no vídeo. E, certamente, deviam tranquilizar outras mães acostumadas com um bombardeio de memórias terríveis veiculadas pela mídia sobre como era quase que diabólico gerar um anencefálico.
Histórias nos dão referências do que é possível fazer, ser… De como podemos estar no mundo. Dados apenas nos explicam as coisas, mas sozinhos não são suficientes para que tomemos ações complexas.